A seleção brasileira teve, por três anos, o Neymar do Santos. Por outros quatro, o Neymar do Barcelona. A partir do próximo dia 31, contra o Equador, terá o Neymar do PSG. A impressão de que o atacante trocou a Sagrada Família pela Torre Eiffel em busca do protagonismo que jamais teria ao lado de Messi se espalhou, embora jamais tenha-se escutado isso da boca do brasileiro. O importante para Tite é que, na Seleção, ele mantenha o status atual.
Neymar virou o jogo com a camisa amarela quando o técnico, sabiamente, descentralizou o poder. E não por qualquer plano maquiavélico, mas sim pela compreensão da importância do coletivo. O atacante ainda é o craque, mas há outros. Ainda é capitão, mas não mais o único.
Ninguém pergunta mais sobre Neymar nas entrevistas de Tite. Nem que importância ele teria em jogo X ou quanta falta faria em partida Y. Seu papel está tão consolidado, claro e estável, que se perdeu curiosidade por cada passo ou espirro que ele desse na Seleção. Apareceram Coutinho, Casemiro, Paulinho, Marcelo, Gabriel Jesus.
Antes, o Brasil de Dunga tinha uma equipe bonitinha e obediente, que dependia unicamente de uma “desobediência tática” de Neymar para prosperar. A faixa de capitão também era dele, a despeito de desinteligências entre craque e treinador. Foi seu pior momento com a Seleção, entre meio de 2015 e meio de 2016, quando ele acumulou mais cartões do que gols.
É absolutamente justo que Neymar queira sair da sombra de Messi, se for esse o caso. O brasileiro jamais demonstrou um tracinho de inveja ou falta de companheirismo em relação ao argentino. Pelo contrário, comportou-se exemplarmente, se tornou seu amigo, cúmplices de talento. Qualquer profissional tem direito de ser “o cara” no seu trabalho, na sua equipe. É também natural que ele vire “dono do time”. O PSG investe há anos sem títulos à altura de suas ambições. Contratar Neymar é dar o recado de não aceitar mais ser coadjuvante de Reais e Barças da vida. Ele é o elemento da mudança de status do clube.
Mas, se der certo, será pela soma do craque a parceiros excepcionais: Cavani, Verratti, Daniel Alves, Thiago Silva e companhia. Ainda que ele mude de status em seu clube, será mais saudável se, na Seleção, as coisas seguirem assim, em ondas calmas.
Taticamente, até pela provável liberdade que Neymar terá de se posicionar no PSG, não deve haver mudanças no desenho da Seleção. O craque está mais maduro. Como Tite gosta de lembrar, agora ele prefere o gol à queda, além de ter desenvolvido a capacidade de dar assistências.
A seleção brasileira também receberá em seus encontros um quarteto mais do que entrosado. Neymar, Daniel Alves, Marquinhos e Thiago Silva já eram amigos. Agora vão dividir vitórias, derrotas, pagodes, brincadeiras e frustrações.
Tite tem pouco a temer com a mudança. Tornar-se ator principal de um projeto de dominar o mundo é o próximo desafio de Neymar nesse processo de amadurecimento. Será interessante, e o técnico brasileiro terá a chance de continuar contribuindo intensamente.
Globo Esporte

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